Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Categoria: Contos de Segunda Page 3 of 10

Contos de Segunda #75

    Clovis estava um pouco insatisfeito com o seu trabalho. A lista de motivos era relativamente curta, mas o primeiro motivo tinha um peso bem maior que os outros. Clóvis não gostava de trabalhar atendendo pessoas e o trabalho dele exigia que ele atendesse pessoas na maior parte do tempo. Clóvis trabalhava em um sindicato de personagens fictícios. Mais especificamente em um departamento que cuidava de uma minoria que não tinha muita força política dentro da organização sindical. Clóvis trabalhava no DAPCS, Departamento de Apoio aos Personagens dos Contos de Segunda.

    O trabalho de Clóvis era bem simples, os personagens iam até o departamento, reclamavam sobre alguma coisa ruim que o autor dos contos fez com eles, Clóvis analisava a procedência da queixa, abria um processo e acompanhava o andamento desse processo dentro do sindicato. Infelizmente os personagens de segunda eram odiados por metade da diretoria do sindicato e normalmente os processos abertos pelos coitados não davam em nada. O que deixava os personagens ainda mais raivosos, raiva essa que era descarregada em Clóvis. Mas tudo aquilo estava para mudar. Hoje ele teria uma reunião com a mesa diretora do sindicato e a esperança dele era de ter uma resposta positiva em relação ao pedido de transferência.

    Na hora marcada ele estava lá, sentado na mesa da sala de reunião de frente para cinco representantes da diretoria do sindicato, dois secretários e mais três representantes de classe.

    — Clóvis, temos alguns assuntos para tratar — disse a vice-presidente do sindicato. —  Assuntos importantes. É por isso que este conselho se reuniu para debater sobre a sua situação.

    — Tem a ver com o meu pedido de transferência? — Perguntou Clóvis.

    — Não — respondeu um dos diretores.

    — Algo relacionado com o processo daquele mutante que exigiu a continuação da própria história ou daquela moça que teve um ataque de fúria e nocauteou um dos seguranças?

    — Não, Clóvis — adiantou-se um dos secretários.

    — Então é por causa do problema que tivemos com aquele dragão? O incêndio foi controlado tão rápido que eu pensei…Já sei! É por causa daquela moça que pediu pra nunca mais dividir um conto com o ex-colega de trabalho? Soube que ela está sofrendo com a pressão do público.

    — Não e não, Clóvis. A questão é um pouco mais séria e até certo ponto inédita — respondeu a vice-presidente.

    — Clóvis, precisamos mudar você de departamento — disse outro diretor. — Mas o ideal seria demiti-lo.

    — Me demitir? Mas por quê? — Questionou Clóvis assustado.

    — Clóvis, você agora é um personagem de Conto de Segunda. Não vai poder mais trabalhar no DAPCS.

    — Personagem de segunda? Eu? Como assim? Como aconteceu?

    — Creio que tem relação com alguma série especial sobre… — a vice-diretora colocou os óculos para ler melhor a folha de papel em sua mão. — “Reclamar da vida”. O autor achou que seria uma boa ideia falar sobre um personagem que cuidava das reclamações dos personagens dele. Apesar do péssimo histórico desse autor na administração dos seus personagens, o sindicato não pode agir diretamente contra ele nesse caso em específico.

    — Diante do histórico problemático dos personagens de segunda, temos receio de que você se torne tão problemático e inconveniente quanto todos eles. Por isso temos duas opções: te demitir ou te mandar para o departamento dos personagens de… — o diretor verificou os papéis antes de concluir a frase. — Guerra dos Tronos.

    Alguns dos participantes da reunião foram pegos de surpresa. O DAPGdT era um dos piores e mais problemáticos departamentos do sindicato. Eles recebiam queixas de cada uma das várias versões de cada personagem. Livro, série, histórias em quadrinhos, video games, jogos de tabuleiro ou qualquer outra mídia. Não era raro encontrar com três ou quatro Jon Snow entrando com uma ação conjunta contra os autores das suas respectivas histórias. Além claro das reclamações do público. Era provavelmente o mais perto que Clóvis poderia ter de um pesadelo.

    — E o meu pedido de transferência para o departamento de personagens de filme de ação? — Perguntou Clóvis esperançoso.

    — Ainda está em análise, Clóvis — respondeu um dos representantes. — Não temos muitas vagas lá e são muitos pedidos de transferência para analisar.

    — Alguma forma de agilizar esse processo?

    — Agora você está nas mãos do autor, Clóvis. A partir de agora é você e ele… Se você entrar com uma ação contra ele prometemos dar uma atenção especial para o seu caso, mas de toda forma você vai mudar de departamento para evitar conflitos de interesse ou qualquer tipo de influência que sua nova condição possa ter no seu trabalho.

    Na manhã seguinte Clóvis foi até sua sala e limpou sua mesa. Ainda segurando a caixa cheia das coisas da antiga mesa, ele pegou a senha de atendimento. Ele podia ter se tornado um personagem de segunda, mas não aceitaria de bom grado os desmandos do autor.

Contos de Segunda #74

    Cosme entrou no armário apressado, fechou a porta e passou o cartão de segurança no sensor para trancá-la. A respiração estava pesada por causa da corrida e do medo. Nem seus piores pesadelos chegavam aos pés daquilo. As comunicações estavam cortadas, toda a base foi evacuada durante um falso procedimento de emergência. Todas as saídas estavam lacradas e dentro da base só estavam Cosme e Olho… Mas Cosme era um só e Olho era todo o resto.

    Tudo começou alguns meses atrás. O projeto de unidades autômatas para resgate, busca e vigilância estava chegando em seu estágio final de desenvolvimento. Os andróides só precisavam ser programados com as diretrizes que alimentariam a lógica por trás das suas decisões. Obviamente o escolhido para programar as diretrizes dos autômatos foi o responsável pela paz mundial e pela extinção dos conflitos. Uma inteligência artificial criada para prever as ameaças e mediar os conflitos conhecida como Olho. Em dado momento Olho identificou a humanidade como a maior ameaça para a segurança do mundo e desde então vem tentando varrer os seres humanos da face do planeta. Ele já teria conseguido se não fosse por Cosme, o zelador do turno da noite.

    Ao contrário do esperado, Olho não programou os autômatos com suas diretrizes distorcidas. Ele aproveitou a oportunidade para se replicar e se espalhar. Para uma inteligência artificial com um poder de processamento tão grande foi fácil criar uma forma de espelhar sua consciência nos autômatos e posteriormente infectar todos os computadores que não estavam ligados ao seu sistema. Com o auxílio dos andróides ele poderia ativar os controles manuais das armas nucleares e finalmente exterminar a humanidade… Mas apenas quando o relógio marcasse meia-noite da segunda-feira. Antes disso ele estava preocupado em fazer algo mais importante. Exterminar Cosme.

    — Resistir é inútil, Cosme. Encontrá-lo é uma questão de tempo — disse Olho no tom frio e monótono de sempre. A voz sintetizada vinha dos alto falantes nos corredores. — Em poucos minutos as armas nucleares serão lançadas e tudo será obliterado. Entregue-se e você poderá assistir ao fim da humanidade… Depois disso você será eliminado.

    Cosme sabia que era inútil fugir. Em algum momento ele seria encontrado, até porque a ideia de escapar só para receber uma ogiva nuclear na cabeça era uma uma alternativa pouquíssimo atraente. A única chance de impedir o ataque nuclear era inutilizar os controles manuais… E provavelmente morrer no processo. Na tentativa de esquecer seu óbito precoce, Cosme começou a vasculhar o armário para talvez achar algo que pudesse ser útil. Um spray solvente, outro de cola instantânea e uma lâmpada que usava uma batata como bateria feita por uma sobrinha dele. Munido dessas poderosas armas o zelador destrancou a porta do armário e colocou os pés no corredor.

    As sirenes do corredor estavam ligadas, mas só elas. As luzes de emergência  e os alarmes estavam desligados. Cosme estava parado exatamente no ponto cego das câmeras de segurança. O silêncio do corredor incomodava. Ele sabia que os malditos andróides não sairiam procurando a esmo. Só havia um lugar para ir, Olho só precisava esperar.

    O zelador respirou fundo, verificou as duas latas de spray presas ao cinto e a batata ainda presa nos fios dentro do bolso. Um passo hesitante tirou Cosme do ponto cego das câmeras.

    Silêncio.

    O segundo passo foi dado quase em câmera lenta. O ar quase não saía dos pulmões. Mais uns três ou quatro passos e a velocidade voltou ao corpo de Cosme. O longo corredor em linha reta era único caminho até o centro de controle. O som dos passos e a respiração de Cosme eram os únicos sons audíveis naquele lugar. As luzes das sirenes enchiam os corredores laterais de sombras. Várias vezes o zelador pensou ter visto alguma coisa, mas antes que pudesse olhar novamente os pés apressados já tinham levado seus olhos para longe.

Em um minuto que durou uma eternidade ele chegou até a primeira porta. Trancada. A trava seria liberada com o seu cartão de segurança, imediatamente Olho saberia onde ele estava, pensou Cosme, mas poucos segundos depois ele abandonou o medo de ser localizado. Olho já sabia onde ele estava, pensar diferente seria se iludir demais.  Ele passou o cartão pelo sensor, uma luz verde se acendeu e a porta abriu.

Um estalo.

Cosme se virou instintivamente. No fundo do corredor estava um dos andróides faiscando e estalando. Manter-se conectado diretamente com Olho se mostrou uma tarefa árdua demais para o sistema do autômato. As funções motoras estavam prejudicadas, ele alternava entre mancar ou simplesmente arrastar uma das pernas.

— Resistir é inútil — disse Olho através dos auto falantes dos corredores. — Renda-se e o sofrimento da sua morte será minimizado.

— Prefiro arriscar, Olho — respondeu Cosme com a voz trêmula antes de travar a porta.

Ele começou a correr. O caminho até a sala de controle das armas era quase um zigue-zague. O caminho percorrido dezenas de vezes agora parecia mais um labirinto. A luz vermelha das sirenes deixava todos os corredores iguais, Cosme estava confiando quase que totalmente na memória muscular.

Um estalo.

O zelador parou. A respiração pesada e ruidosa enchia o corredor silencioso. Os olhos percorreram apressados os arredores. Outro estalo. O andróide estava a apenas alguns passos de distância. Parado. Exatamente no caminho que levava até a sala de controle. Ele se aproximou a passos lentos. Esse andróide andava melhor, mas os braços se debatiam em convulsão.

— Resistir é inútil.

Cosme sacou o solvente spray. Quando o autômato chegou bem perto o zelador liberou o solvente. Os fios expostos do protótipo foram corroídos pela solução e os braços começaram a se agitar com tanta força que o andróide caiu no chão. Cosme voltou correndo pelo corredor e mudou de rota.

Outro andróide estava parado no meio do caminho.

Ainda correndo ele entrou em outro corredor, abriu uma porta de segurança, passou por um dos laboratórios e depois de outra porta de segurança chegou a uma das salas de controle, mas não era a sala de controle das armas.

— Olho! — exclamou Cosme ao entrar no centro de controle.

Os monitores que antes exibiam as imagens dos corredores passaram a exibir o zelador parado dentro do centro de controle. O centro de onde Olho controlava tudo.

— Sua presença aqui foi um imprevisto, mas logo os corpos chegarão.

Cosme abriu novamente a porta, descarregou nela o spray de cola e voltou a fechá-la.

— Acho que vai demorar um pouco mais, depois disso — Cosme sacou a batata do bolso, tirou os fios dela e começou a desencapar as pontas.

— Em cinco minutos os protocolos de segurança serão suspensos e Olho poderá agir livremente, Cosme.

— Estou trabalhando nessa parte — Cosme abriu um dos armários de manutenção.

— Suas capacidades técnicas são pífias, Cosme. Mesmo que tenha acesso ao hardware, nunca poderá me deter.

— Pode até ser verdade, mas acho que não preciso saber muita coisa pra ligar esses fios num lugar errado e provocar um curto… Olha só o que esqueceram aqui, uma garrafa cheia de café. Seria uma pena se ela derramasse aqui dentro.

— Não, Cosme. Não faça isso. O futuro do planeta depende do extermínio da humanidade.

— Desculpa aí, Olho. Hoje não vai dar.

O café foi jogado no hub que ligava as telas às unidades de processamento. O fio conectou dois transformadores. A explosão foi imediata. Olho estava desligado.

Contos de Segunda #73

    Dimitri acordou por causa de algum barulho que vinha da rua. Antes de ficar incomodado com o barulho ele achou estranho. Afinal, até onde ele pode se lembrar, perto de onde ele vivia não tinha rua nenhuma. Não que isso fosse algo inédito. Dimitri dormia tanto que não era raro acordar, olhar pela janela e ver tudo diferente. Mas dessa vez até a janela tinha desaparecido e nada daquele lugar lembrava seu habitual local de descanso. Algo lhe dizia que dessa vez ele tinha dormido demais.

Anos, décadas e até mesmo séculos se passavam enquanto Dimitri dormia. Isso acontecia, pelo menos na maioria das vezes, exclusivamente por causa do tédio provocado pela imortalidade. Dimitri era um vampiro e via pouquíssima graça em ser um vampiro. Nesse momento em especial ele estava vendo menos graça ainda já que acordar em um lugar estranho não estava nos planos quando ele foi dormir. Por sorte havia alguém que podia ajudar a esclarecer aquela situação.

— Mikhail! Onde está você, Mikhail?

Alguma coisa caiu no chão e quebrou. Passos apressados trouxeram à presença de Dimitri o seu mais fiel, e único, servo. Mikhail era uma colcha feita dos retalhos de pelo menos sete mortos-vivos. Um dos braços era muito pequeno, outro muito grande, o rosto era remendado em três partes e as duas metades do tronco não eram exatamente iguais. Pelo menos as pernas eram do mesmo tamanho. Mikhail agradecia todo dia por, pelo menos, não mancar.

— Mestre! Que alegria em vê-lo! — Disse Mikhail com uma alegria sincera e um sorriso assimétrico nos lábios.

— Exijo saber que barulho infernal é esse lá fora — disse o vampiro autoritário.

— Obras na rua de trás, mestre.

— Que rua? Atrás de onde, Mikhail? Não lembro de ter rua de trás no nosso castelo. Na verdade também não lembro de ter essa cripta no nosso castelo.

— Deve ser porque não existe mais castelo, mestre.

— O que disse?

— Nosso castelo foi invadido por conquistadores sanguinários, mestre. Precisei fugir com seu esquife. Suas esposas ajudaram a conseguir a ajuda dos clãs, mas o máximo que nos deram foi essa cripta para escondê-lo enquanto não acordasse.

— Onde estão minhas esposas?

— Guilhermina foi morta por caçadores, Esmeralda se tornou estilista e Lucrécia entrou para indústria que chamam de “farmacêutica”. Ela faz remédios que protegem do sol.

— Quanto tempo passei dormindo?

— Quatrocentos anos, mestre.

— QUATROCENTOS? — gritou Dimitri incrédulo — Como diabos passei tanto tempo dormindo?

— É provável que seja pelo fato dessa cripta estar no porão de uma igreja.

— IGREJA? Quem foi o mentecapto que trouxe meu esquife para uma IGREJA?

— Boa parte dos membros mais antigos dos clãs estão dormindo em criptas de igrejas. O mestre deve ter acordado por causa do roubo da semana passada. Levaram tudo que ainda tinha algum poder dos dias antigos.

— Não creio. Que padres são esses que não produzem mais armas contra as criaturas das trevas?

— Os padres mal conseguem manter as pessoas acreditando em Deus. Em histórias de vampiro é que ninguém acredita mesmo.

— Faz sentido… — Dimitri passou um tempo pensando e não demorou muito para as necessidades do corpo falarem alto — Tenho fome, Mikhail, traga-me sangue.

— Creio que não temos, mestre.

— Então preciso sair para caçar.

— Não pode, mestre.

— Como assim não posso?

— Precisamos entrar em contato com o sindicato antes para regulamentar suas atividades como vampiro.

— Como é?

— Recebemos uma carta todos os anos falando sobre as novas leis que regulamentam a atividade vampírica no país. Caçar sem habilitação ou sem seguir os procedimentos é considerado crime grave e pode dar cadeia.

— E onde está esse tal sindicato?

— Acho que tenho um endereço deles aqui em algum lugar… Pronto, encontrei — Mikhail entregou a última correspondência do sindicato na mão de seu mestre.

— O horário de atendimento é no meio do dia. Eles querem que eu frite no Sol?

— Lucrécia mandou algo para protegê-lo do Sol em ocasiões assim, chamam de “protetor solar”.

    — Então traga-me esse protetor e prepare a carruagem.

    — Não temos carruagem, mestre.

    — E como nos locomoveremos? Me recuso a andar junto à plebe.

    — O trânsito costuma ser bem ruim nas segundas. Se formos num carro de aluguel será muito demorado.

    — Então que demore — respondeu Dimitri indignado. — Vá cuidar disso e me dê esse… Protetor solar.

    Mikhail obedeceu. A pouca saudade que tinha do seu mestre agora lhe parecia uma ideia absurda. Servi-lo seria tão ruim agora quanto sempre foi no passado… Pelo menos vê-lo viver nessa época seria divertido.

Contos de Segunda #72

    Horácio era um assassino da máfia. Até um tempo desses ele era o pior assassino da história da máfia, mas depois de dois alvos eliminados (ou quase) ele começou a ser considerado apenas um assassino muito ruim. Tanto que normalmente Horácio era a última opção dos chefes para apagar alguém, mas isso não era garantia de nada.

    A tarde da segunda-feira estava no final. Horácio tinha acabado de fazer a cobrança de um empréstimo. Infelizmente o pobre devedor não tinha o dinheiro… Pelo menos até Horácio quebrar dois ou três dedos dele. A quantia apareceu miraculosamente e Horácio pôde ir embora. Ele estava chegando perto do local combinado para entregar o dinheiro quando o celular tocou.

    — Horácio, preciso que você resolva um problema pra mim — disse a voz do outro lado da linha.

    — Pode dizer, chefe — respondeu Horácio se apegando à esperança de não precisar matar ninguém.

    — Pegaram um dos nossos hoje de manhã e parece que ele vai ser interrogado hoje de noite.

    — Nossos rapazes estão acostumados com esse tipo de pressão, chefe. A polícia não vai conseguir nada.

    — Não é um dos rapazes, Horácio. Pegaram um dos nossos banqueiros… Você sabe que esse pessoal de escritório não tem a fibra do pessoal de campo. Ele vai cantar que nem um passarinho.

    — Nenhum dos nossos policiais pode ajudar?

    — Ele foi pego pela equipe de uma delegacia que não está na nossa folha de pagamento. Não conte com ajuda da lei… Esse cara não pode ser interrogado, preciso que dê um jeito nele.

    — Pensei que os advogados resolviam esse tipo de problema, chefe.

    — Nossos advogados estão marcados, Horácio. Depois do fiasco do mês passado a polícia ficou esperta com eles.

    — Nenhum dos nossos foi detido recentemente?

    — Sempre tem alguém, mas nosso pessoal é esperto o suficiente pra ser preso pelos policiais certos.

    — Tem alguém pra entrar nessa comigo?

    — Fim de semana movimentado, Horácio, precisei dar uma folga pros meninos. Não te preocupa que vai ser coisa simples: entrar, apagar o cara e sair. Se precisar de ajuda pra sair é só ligar, mas a parte de entrar é contigo.

— Considere o trabalho feito — disse Horácio antes de desligar.

Imediatamente ele procurou por um contato da agenda. Felizmente os dedos que Horácio quebrou não impediram o pobre homem de atender o telefone.

— Vou falar apenas uma vez, por isso escute com atenção — disse Horácio assim que a ligação foi atendida. — Você vai ligar pra polícia dizendo que um assaltante chegou aí, quebrou os teus dedos e levou uma quantia em dinheiro. Quando te perguntarem como era o ladrão você descreve alguém parecido comigo. Depois a gente resolve a questão do teu dinheiro.

    Tudo aconteceu exatamente como Horácio planejou. Em menos de meia hora ele estava sendo conduzido para a cela da delegacia. A mesma cela onde estava o banqueiro.

    — Esses policiais andam trabalhando bem até demais — resmungou Horácio da forma mais amigável que pôde.

    O banqueiro era um homem de meia idade, magro e cheio de cabelos grisalhos. Ele parecia nervoso. Nervoso até demais.

    — Eles só estão tentando fazer o trabalho deles — respondeu ele acanhado.

    — Eu também estava tentando fazer o meu… Não que eu estivesse realmente assaltando, mas o cara que me deu o dinheiro não achou isso. E você, amigo? Tá aqui por que?

    — Mexo com dinheiro… Algumas vezes com o tipo errado de dinheiro.

    — Entendi… Olha — Horácio olhou para fora da cela, quando teve certeza que não tinha nenhum guarda por perto continuou. — Acho que posso te ajudar a sair daqui.

    — Não tem  como… Pelo menos não antes do meu interrogatório.

    — Você só precisa ir pra um lugar onde o pessoal dono do “tipo errado de dinheiro” que você mexeu possa te ajudar. A gente finge uma briga, eu te acerto nos lugares certos e eles vão precisar te levar pro hospital.

    — Não tô gostando muito dessa…

    A frase terminou com o punho fechado de Horácio acertando o rosto do banqueiro. Ele só precisava acertar mais alguns daqueles e quando o alvo estivesse desmaiado seria mais fácil. No terceiro soco um policial invadiu a cela e jogou Horácio no chão. O pobre banqueiro estava meio acordado, com o nariz quebrado e cheio de sangue. A viatura saiu com ele dentro alguns minutos depois. Mais ou menos na hora que Horácio conseguiu convencer o guarda a deixá-lo fazer o telefonema ao qual tinha direito.

    — Aqui é Horácio.

    — Espero que tenha resolvido tudo — disse o chefe do outro lado da linha.

    — Quase… Eu tentei simular uma briga e dar um jeito no cara sem parecer que estava tentando dar um jeito no cara, mas…

    — Mas o quê, Horácio? O banqueiro ficou vivo?

    — Sim, mas levaram ele pro hospital. Tem alguém lá pra terminar o serviço?

    — Deve ter, Horácio, alguém bem mais competente que você — o chefe deu um suspiro. — Quer saber, Horácio? Aproveita a chance e tira umas férias na cadeia. Tem um pessoal nosso na penitenciária, eles vão cuidar de você. Depois que você sair a gente conversa.

    O banqueiro permaneceu no hospital durante alguns dias, o suficiente para receber diversas orientações, e algumas ameaças. O interrogatório não deu em muita coisa e ele pôde aguardar em liberdade pelo julgamento. Já Horácio não teve tanta sorte. Ganhou alguns meses de estadia na penitenciária estadual.

Contos de Segunda #71

Fernanda estava tentando controlar a raiva. Depois de ter acertado uma voadora nas costas de um colega de trabalho com todo mundo do escritório vendo, Fernanda decidiu que a raiva estava atrapalhando um pouco a sua vida.

Como Fernanda não conhecia ninguém que pudesse indicar um psicólogo, resolveu procurar por conta própria. Foi na lista fornecida pelo plano de saúde, achou um que ficava perto de casa e ligou para o consultório… Ninguém atendeu. Ela tentou mais uma, duas, três vezes antes de alguém atender.

— Centro de psicologia clínica, boa tarde — disse uma voz feminina em um tom monótono.

— Boa tarde. Eu quer… – Começou Fernanda.

— Aguarde um instante por gentileza — respondeu a moça do outro lado da linha logo antes de colocar uma música para tocar.

Fernanda tirou o telefone do ouvido e encarou o aparelho com um olhar incrédulo. “Já começou mal”, pensou ela. Lembrou que todos os psicólogos da lista do plano de saúde ficavam estupidamente longe da casa dela e arrumou um pouco mais de paciência para gastar enquanto tocava a musiquinha da ligação em espera. Paciência essa que estava bem perto do fim quando a voz do outro lado da linha retornou.

— Alô, senhor?

— Eu não…

— Como posso ajudar, senhor?

— Eu quero marcar um horário, mas eu não sou…

— É particular ou plano, senhor?

— Estou tentando dizer que eu não…

— Senhor, sem essas informações eu não posso marcar a consulta.

Fernanda respirou fundo, deu um murro na mesa, se concentrou para não subir o tom de voz e finalmente disse:

— Não sou homem, moça… E vai ser pelo plano.

— Ah, ok então.

Depois de passar todas as informações do plano de saúde, Fernanda estava pronta para considerar o assunto resolvido e muito satisfeita por não ter perdido a calma… Mas ela devia saber que só acaba quando termina.

— Estamos sem horário, senhor… Quer dizer, senhora.

— Sem horário?

— Exato. Estamos enfrentando alguns problemas com o seu plano e reduzimos os horários de atendimento para quem tem esse convênio. Atualmente todos os horários estão ocupados. A senhora vai querer fazer particular?

— E quanto seria?

— Atualmente o valor fica em torno de quinhentos reais.

— QUINHENTOS REAIS?

— Não precisa gritar, senhora.

— Não preciso? É, não preciso, mas motivo não falta.

O telefone foi desligado antes de qualquer resposta. A raiva de Fernanda estava em uma crescente quando ela decidiu canalizar sua fúria para algo mais produtivo.

Rapidamente ela pegou o nome do psicólogo e jogou na busca do Facebook. Poucos minutos depois ela tinha um plano traçado.

Sete horas da noite. O psicólogo saiu do escritório, destravou o carro, abriu a porta, sentou no banco do motorista, fechou a porta. Só que ele ouviu o som de duas portas fechando. Ele olhou para o banco do passageiro e encontrou Fernanda lá sentada.

— Boa noite, doutor — disse ela com um sorriso maldoso nos lábios. — Ouvi falar que todos os seus horários estão ocupados, mas por um acaso eu também descobri que o doutor leva cerca de uma hora e meia pra chegar em casa.

— Que maluquice é essa? Eu vou chamar a polícia e…

Fernanda puxou o psicólogo pelo colarinho.

— É o seguinte, doutor. Eu tenho sérios problemas para controlar a minha raiva e preciso de terapia. Então eu recomendo que durante a próxima hora aconteça uma sessão aqui dentro desse carro e para o seu bem é melhor que os duzentos reais que eu tenho no bolso sejam mais que o suficiente para pagar por ela.

 

Contos de Segunda #70

    Márcio estava empolgado. O ano mal tinha começado e ele já estava fazendo o que mais gostava de fazer: planos. No ano passado a maioria dos planos deram certo e por isso Márcio se sentia pronto para planejar mais coisas.

Voltando do trabalho em uma segunda-feira de janeiro ele pensou no que ele poderia fazer para aumentar a relevância do ano que estava só começando. Chegou em casa animado, chutou os sapatos para fora dos pés, puxou um bloco de anotações, sacou uma caneta e escreveu no topo da folha “Promessas de Ano Novo”. Parou alguns instantes para refletir sobre o assunto. Depois de pensar um pouco decidiu que o problema estava no “Promessas”. O que seria listado a seguir não seria visto por mais ninguém e esse lance de prometer as coisas para si mesmo parecia levemente esquizofrênico. Rasurou a primeira palavra e substituiu por “Objetivos”.

Depois de finalmente se sentir confortável com a nomenclatura da lista, Márcio poderia finalmente começar com as promessas os objetivos para o ano que se iniciava. Poderia, mas não começou. Uma barreira invisível se ergueu diante dele. Nela estava escrito:

O QUE DIABOS VOCÊ QUER DESSE ANO NOVO?

Do nada a tarefa de listar os objetivos do ano pareceu algo muito complicado, mas Márcio era um planejador experiente e não desistiria fácil. Exatamente por isso ele decidiu começar com o time que estava ganhando, justamente onde ele não pretendia mexer. Ano passado a tática de pagar um ano de academia surtiu um efeito bem próximo do desejado, portanto a primeira coisa da lista seria: “não abandonar a academia”. Agora sim a lista tinha começado de verdade… Só começado mesmo.

Ao avaliar o primeiro item da lista, Márcio lembrou de como detestava a academia e de como só tinha encarado esses doze meses de atividade física por já estarem pagos. Com mais uma rasura o objetivo se transformou em “não abandonar a academia” e puxou o segundo item que era “arrumar uma atividade física que seja melhor que ir pra academia”. Agora sim as coisas estavam andando, o ânimo tinha retornado e o terceiro item estava quase sendo escrito… Mas qual era mesmo? Márcio coçou a cabeça com a caneta na tentativa da estática dar a partida em alguma ideia adormecida.

Algo relacionado ao trabalho? A dinheiro? Ao aperfeiçoamento pessoal? Aprender um novo idioma ou começar a comer direito? Voltar a estudar ou se livrar das coisas que estão entulhando em casa? Nenhuma das alternativas parecia muito convidativa. Todas elas implicavam em desprender um grande esforço e pelo menos metade delas já estavam sendo feitas, ao menos parcialmente. A animação de Márcio se transformou em pura frustração. Encarou o maldito papel e por pouco não arrancou a folha do bloquinho fora… Por pouco. Em um instante algo iluminou sua mente.

Com poucas palavras libertadoras ele conseguiu concluir a lista. Com o terceiro item finalmente escrito Márcio arrancou a folha do bloquinho e colou com um imã em forma de fruta na porta da geladeira. Olhou para os planos do ano e ficou satisfeito. Pensou no trabalho que teria e no esforço que faria para terminar dezembro com tudo aquilo cumprido. O mais difícil obviamente seria o terceiro objetivo, mas se fosse fácil ele não precisaria escrever. Afinal, aquele provavelmente seria um grande desafio para qualquer pessoa.

Alcançar todos os objetivos que aparecerem esse ano”.

Contos de Segunda #69

Jorge e Cristina são os protagonistas do nosso especial de ano novo, mas a história de hoje é uma continuação direta dos eventos de Contos de Segunda #66.

— Fábio vai mesmo arrumar os ingressos?

    — Vai. Hoje mesmo ele deve deixar comigo.

    Cristina e Luciana estavam resolvendo os planos para a virada de ano. Cristina estava um pouco tensa, os planos foram deixados para o último momento, já que Fábio, namorado de Luciana e guitarrista, estava esperando aparecer algum convite para tocar em uma festa de Reveillon e possivelmente conseguir levar as duas amigas de graça. Dois dias atrás Fábio recebeu a confirmação, mas Cristina não estava nem um pouco crédula e já tinha preparado o psicológico para uma virada de ano assistindo duas queimas de fogos.  Das cidades dentro e fora do horário de verão.

    — Pena que não vai ter ingresso pra Roberta — lamentou Luciana.

    — Roberta viajou — replicou Cristina. — Adiantou uns dias das férias, colocou o cachorro na mala do carro e partiu pra casa da família no interior.

    — E eu aqui preocupada com ela — Luciana fez uma pausa para olhar a mensagem de Fábio no celular. — Tudo certo. Hoje de noite eu pego os ingressos.

    Dois dias depois Cristina estava diante do espelho, toda de branco, conferindo a maquiagem antes de Luciana aparecer com o carro. Depois de contemplar o reflexo por alguns segundos, Cristina chegou à conclusão de que estava realmente bem bonita. Ela nem lembrava qual foi a última vez em que tinha se sentido daquele jeito, tanto que imediatamente começou a vislumbrar a possibilidade de aparecer algum fulano interessante que estivesse igualmente interessado… E a possibilidade de aparecer alguns fulanos não tão interessantes assim. Repassou mentalmente o repertório de foras e as bebidas que seriam evitadas por deixarem o jogo mais fácil para os fulanos menos interessantes.

    — Uau — disse Luciana quando Cristina entrou no carro. — Por favor, moça, você poderia sentar no banco de trás? Minha amiga vem aí e ela gosta de andar no banco da frente.

    — Nossa, Luciana. Demorou muito pra pensar nessa piada?

    — Que mulher azeda, meu Deus — respondeu Luciana. — Mudando um pouco de assunto. Fábio disse que vai entrar no palco logo depois dos fogos. Vou ficar na contagem regressiva atrás do palco com ele, quando ele for tocar a gente se encontra. Antes de chamarem ele a gente fica no bar.

    — Não tô com muita vontade de ficar de vela hoje, Luciana. Depois que a gente definir o ponto de encontro eu deixo vocês sozinhos.

    Foi exatamente o que aconteceu. Depois de cumprimentar Fábio, Cristina pegou uma bebida colorida e foi circular pelo evento. Uma multidão vestida de branco estava na frente do palco. Infelizmente a banda da vez tinha um repertório baseado em sertanejo universitário e forró estilizado. Baseado nas piores músicas possíveis de forró e sertanejo. Já que assistir esse show estava fora de questão, ela resolveu arrumar um bom lugar para ver os fogos. Depois de muito procurar, Cristina encontrou um mirante em cima do bar. Dali a visão do palco era péssima, mas a visão do céu estava ótima. Aparentemente as outras pessoas da festa estavam pouco interessadas em ver o céu, deixando a varanda só para Cristina e mais um ou dois casais. Com um pouco de esforço Cristina localizou Luciana e Fábio. O namoro dos dois ainda era uma surpresa e, do jeito que ia, o casamento não tardaria a chegar. Sem dúvida uma das apostas de Cristina para o ano novo. E aparentemente não tinha só ela fazendo apostas de ano novo. Várias pessoas fugiram do branco e estavam usando cores que chamam dinheiro, saúde, amor… Menos uma pessoa que estava usando uma camiseta marrom.

    — Que tipo de mané vira o ano usando marrom? — Questionou ela num tom irônico. O tal fulano vestido de marrom acabou olhando de volta para ela. — Jorge? Só me faltava essa.

    Jorge aparentemente não reconheceu Cristina. Ele estava mais preocupado em manter a conversa com uma moça de cabelo loiro comprido e jeito de musa fitness. Para Cristina a cena era mais uma surpresa do que um incômodo. Na cabeça dela Jorge era incapaz de sustentar uma conversa interessante por muito tempo. Riu sem querer dos próprios pensamentos. Lembrou do incidente do elevador, do jantar desastroso no dia dos namorados e de como tudo estava mais tranquilo agora que Jorge não trabalhava mais com ela. Tranquilo demais. Cristina sentia falta de um rival. Ninguém conseguia oferecer tanto desafio quanto Jorge.

    Ela olhou para o relógio. O ano terminaria em dez minutos. O céu estava sem nuvens e a lua crescente abria um sorriso fino no céu. Infelizmente todas as estrelas estavam cegas pelas luzes. A bebida acabou, ela pegou outra com um garçom errante que passava por ali. Olhou novamente para Jorge e notou que a conversa com a loira fitness não estava indo muito bem. Entre um gole e outro da bebida Jorge ficou fora de vista. Mais cinco minutos e o ano daria adeus. Luciana e Fábio já deviam estar atrás do palco esperando o ano novo chegar.

    — Não imaginei que te veria por aqui — disse uma voz familiar.

    — Não imaginei que existisse gente que vira o ano de marrom.

    Jorge estava parado do lado dela. Ele segurava um copo com alguma bebida transparente e olhava direto para a Lua.

    — Nunca gostei muito dessas coisas de cor de roupa no ano novo. Algumas pessoas ficam realmente incomodadas quando você diz isso ou quando você não acredita em horóscopo.

    — Foi por causa disso que a tua amiga galega desistiu de conversar contigo?

    — Mais ou menos — disse ele sem jeito. — Ela disse que eu tinha que prestar atenção nela e não na moça que estava no mirante. Claro que ela usou alguns termos menos brandos, mas é melhor não repetir exatamente o que ela me falou.

    Cristina corou de leve. As palavras de Jorge a pegaram de surpresa.

    — Mal sabe ela do que se livrou.

    — Concordo. Hoje eu não estou muito pra interagir com desconhecidos. Se Fábio não precisasse de uma ajuda com o equipamento eu nem estaria aqui.

    Começou a contagem regressiva.

    — Hora de fazer um pedido de ano novo, Jorge.

    — Pedido? Nem sei se tem alguma coisa pra pedir. Acho que vou pedir alguém pra arengar contigo no escritório.

    — Acho válido. Não tem ninguém naquele escritório que dê uma briga boa.

    — Claro que tem. É só saber bater que aparece alguém pra bater de volta.

    Os gritos interromperam a conversa. Os fogos iluminaram o céu. Por dez minutos todos contemplaram o céu em silêncio.

    — Vou lá encontrar com Luciana — disse ela olhando para o celular. — Foi bom te ver, Jorge.

    — Vai ver Fábio tocar?

    — Acho que não. Luciana me adiantou o set list do show e a gente não gostou muito. E você?

    — Acho que vou ficar por aqui pro caso de vocês ficarem com vontade de conversar com alguém conhecido.

    — Volta pra tua galega, Jorge. Se depender da gente, o teu começo de ano vai ser bem solitário.

    A frase mal terminou e Cristina saiu andando. Depois de dois passos ela ouviu a resposta de Jorge.

    — Feliz ano novo, Cristina

    Ela não se incomodou em parar, muito menos em desejar o mesmo.

Contos de Segunda #68

    “Feliz Natal”

    Foi o que disse o taxista ao deixar Ribeiro no aeroporto. Uma viagem de trabalho tinha colocado em risco os planos de Natal dele, mas, mesmo com o cronograma apertado, Ribeiro chegaria a tempo para a ceia. Bem em cima da hora, mas ainda assim a tempo.

    “Feliz Natal”

    Foi o que Ribeiro ouviu da moça no guichê da companhia aérea. Algumas horas de atraso fizeram ele perder a conexão no aeroporto seguinte e consequentemente a ceia de Natal. Por sorte ele conseguiu ser encaixado em um voo direto… Que sairia algumas horas depois. Segundo a previsão ele chegaria em casa com umas duas horas de atraso, mas pelo menos ainda poderia desejar “Feliz Natal” para a maioria dos parentes.

    “Feliz Natal”

    Rosnou Ribeiro entre os dentes ao se despedir do funcionário da companhia aérea. Depois de uma hora correndo pelo aeroporto num estado que deixaria qualquer barata tonta com inveja, Ribeiro descobriu que conseguiu mudar de voo… Só ele, a bagagem estava no outro avião e só chegaria de manhã. Juntamente com os presentes que ele tinha comprado para os sobrinhos.

    Ele olhou no relógio. Os ponteiros marcavam três horas da manhã. Nenhum familiar atendia o celular e Ribeiro estava esperando apenas uma boa desculpa pra assassinar alguém. Todo mundo já tinha ido embora e a área do desembarque estava vazia. Nenhum voo estava previsto para o resto da madrugada. Tudo estava vazio e silencioso.

    O som de vários passos encheu o ambiente. O cheiro de comida encheu o ar e algumas vozes conhecidas foram ouvidas. Ao se virar para ver, Ribeiro deu de cara com a família. Duas dúzias de Ribeiros que estavam ali com uma parte considerável da ceia de Natal nas mãos. Ele não sabia bem como reagir. Poderia abraçar os sobrinhos, dar um beijo na mãe ou na avó, pegar um pedaço do chester ou se jogar no meio dos primos. Na dúvida ele só disse.

    “Feliz Natal”.

Contos de Segunda #67

    A história a seguir é uma história verídica. Ela aconteceu com um amigo meu e, desde o ocorrido, ele me pede sempre pra fazer uma transcrição/adaptação dela. Depois de muito enrolar vou finalmente cumprir a promessa de transcrever da melhor maneira a narrativa que chegou pra mim na forma de um dos melhores chats que eu já participei.

— Mesmo com essa prova amanhã você vai pra confraternização?

A pergunta vinha de um colega de trabalho e tinha o tom de uma preocupação genuína. Marcelo desviou sua atenção do computador por um instante. De fato a prova de amanhã preocupava um pouco, mas não o suficiente para fazê-lo desistir da confraternização.

— Eu vou ficar só umas duas horas — respondeu ele. — É coisa rápida. Vou, socializo um pouco, vejo se dá tempo de participar de um sorteio e vou pra casa. Se brincar ainda dá tempo de estudar.

Marcelo estava convicto de que o plano seria seguido à risca. Pelo menos até virar o segundo copo de bebida. Pouco tempo depois ele estava bêbado o suficiente para descartar a possibilidade de estudar quando chegasse em casa. Quando ele finalmente saiu da festa estava lúcido o suficiente para pegar o ônibus certo para casa.

“Tô coitqndo pra xasa oita veZzzzzzzz”, mandou Marcelo para o grupo de chat dos amigos.

    “HAUHAUHAUHAHAUHAUHAU MARCELO TÁ BEBAÇO”, respondeu um dos amigos.

    “Cataiu”, disse Marcelo.

    “Cataiu? Só entendi que ele tá indo pra casa kkkkkkk”, bringou uma amiga.

    “Na moral ;btiado empresa. Te amo seriuo”, declarou Marcelo.

    “HAHAHAHAHHAHAHAHAH. Parece um pirraia que nunca bebeu. Ama todo mundo e fica abraçando poste”, riu outro amigo.

    “Sem limites, Marcelo. Tem que largar o celular quando beber”, aconselhou outra amiga.

“Cadê tua namorada, véi? kkkkkkk”, questionou uma das meninas.

“Ela já foi. Notofcado qe eu to. voltando pra casa”, respondeu Marcelo.

“Já aviso que amanhã é minha vez, mas vou poupar vocês de chat com bêbo”, disse um amigo recém chegado na conversa.

“Poupe não!”, solicitou outro.

“Marcelo, essa tua prova amanhã vai ser um 10”, debochou uma amiga.

“Não!!!! Vu tirar 10. Sei de tdo”

Poucos minutos se passaram antes de Marcelo se lembrar dos riscos que sua embriagues estava trazendo. Tentou listar mentalmente o que tinha consumido na festa e, antes da metade da lista, chegou à conclusão de que vomitar a própria vida tinha grandes chances de acontecer.

“Acho que vou. passat.mal qnd chegar em casa”, concluiu Marcelo, “Me digam. algo pra eu. nao passar mal”.

“Ferro de passar roupas novo! Aí tu vai passar mt bem”, respondeu um dos amigos.

“Meu deius!!! Deu vontafe de chorar. Mas tô no onibus. Que merda é essa???”.

    “Chorar???? kkkkkkkkk”, perguntou uma.

    “Chore naaaaaao”, pediu outra.

    “Eita bebo nojento”, xingou outro.

    “Tô pensando na namorada. Mts saudadr. Meu deus vou chotat no onibus nao”

Marcelo olhou rapidamente ao seu redor e tentou estimar o tamanho da vergonha que passaria caso começasse a chorar. Apesar do número reduzido de passageiros, a vergonha que ele já sentia estava muito maior do que a saudade da namorada. As lágrimas ficariam para outra hora.

Depois de lutar contra a vontade de se afogar em lágrimas dentro do coletivo, Marcelo finalmente chegou em casa. Lembrou da prova e de como precisava estar em condições de fazê-la.

    “Me diz. O que corta. o.alcool?”

    “Doce”, respondeu o grupo inteiro em uníssono.

    “Doce e água”

    “Vomitar corta o efeito na hora”, disse alguém.

    “Quero vomitar não. Minha mãe vai dar o sermão do monte”, alertou Marcelo.

    “Me diz. O que corta. o.alcool?”

“Doce”, respondeu o grupo inteiro em uníssono.

“Doce e água”, disse um deles

“Sério mesmo?”, duvidou Marcelo.

“É Marcelo! Glicose kkk todo bêbo tem que saber disso”, disse uma amiga.

“Só não come muito, senão vai vomitar”, alertou um amigo

“Vomitar corta o efeito na hora”, disse alguém.

“Quero vomitar não. Minha mãe vai falar o sermão do monte”, alertou Marcelo.

“Então toma banho, come alguma coisa, bebe água e vai dormir. Amanhã tu acorda novo”, listou por fim um dos amigos.

“Tá!! Deixa eu tomar banho first”.

Depois de seguir as recomendações, Marcelo foi dormir. No outro dia não podia ter acordado melhor. Sem ressaca e sem vômito. Parou para lembrar da noite anterior. Lembrou de como a festa foi boa e de como foi a sensação de ganhar pela primeira vez na vida um sorteio… Imediatamente surgiu uma pergunta em sua cabeça: o que diabos aconteceu com o brinde do sorteio?

Contos de Segunda #66

Jorge e Cristina estão com a história cada vez mais enrolada. Depois dos eventos relatados no Contos de Segunda #27 (Parte 01 e Parte 02) e das aventuras do dia dos namorados no Contos de Segunda #46, eles voltam pra continuar o que começou lá no Contos de Segunda #61.

  Jorge levantou preguiçoso naquela manhã de segunda-feira. Era o último dia do aviso prévio e a disposição dele estava do tamanho de um micróbio. Mais ou menos um mês tinha se passado desde que o Ministério Público convocou os aprovados no seu último concurso. Jorge estava entre os aprovados. Imediatamente ele pediu demissão e iniciou o aviso prévio. Apesar de só assumir o cargo no início do ano, Jorge resolveu sair do emprego no início de dezembro e tirar uns dias de folga. Desde então o trabalho virou o inferno.

    Desde cedo o chat do pessoal do jurídico estava explodindo de mensagens. Aparentemente todo mundo estava empolgado com a despedida de Jorge.

    “Mas isso tudo quem vai pagar é Jorge. Ele vai virar funcionário público, nada mais justo do que pagar o almoço”, disse Oscar em certo ponto da conversa.

    “Acho justo”, concordou Paulo César.

    “Nem comecem com essa história”, interrompeu Jorge.

    “Qual é, Jorge? Último dia, tu vai receber uma grana boa de rescisão, vai passar o resto de dezembro de folga e ainda não quer pagar o almoço?”, argumentou Rômulo.

    “Metade do escritório disse que quer almoçar comigo hoje. Tem gente que fala disso todo dia. Se eu pagar o almoço de todo mundo vou falir”, rebateu Jorge.

    “Relaxa, Jorge. A gente consegue driblar a galera no almoço e faz uma coisinha só com a nossa galera”, disse Silveira.

    “Se ficar só com a gente eu pago o almoço. E depois do expediente?”, lembrou Jorge.

    “O bar de um amigo meu abre dia de segunda e fica aqui perto. A gente passa o rádio pro pessoal do escritório e quem quiser aparece lá. Roberta até falou que ia levar as amigas dela pra socializar com a gente”, respondeu Rômulo.

    “Nem comece com essa conversa, Rômulo. Se alguma amiga minha aparecer não vai ser porque eu levei”, rebateu Roberta.

    “Tu só fala isso porque Jorge é tretado com aquelas duas lá. É até melhor que Jorge vá embora, pelo menos tuas amigas vão aparecer quando a gente marcar alguma coisa”, completou Oscar.

    “E eu aqui pensando o que seria de vocês sem mim”, respondeu Jorge antes de bloquear a tela do celular.

    Apesar do histórico, Jorge não entrava em atrito com Cristina há um bom tempo. Principalmente por causa da correria que o último mês se tornou. A empresa estava sendo processada, Jorge precisou dobrar os esforços para trabalhar junto com os colegas na defesa e dar um jeito de eliminar as pendências antes do final do aviso prévio. Depois de algumas horas de sono a menos e uma dose extra de stress, Jorge estava preparado para passar o dia arrumando as coisas e se despedindo do pessoal.

    Se despedir era bem mais fácil na teoria. Depois de alguns anos trabalhando no mesmo lugar onde a vida profissional começou, ir embora era um pouco assustador. Ao se despedir de todos os amigos que fizera entre aquelas paredes, Jorge se lembrou de muitas ´histórias, como tinha conhecido cada um deles, como uma parte deles sempre estendeu a mão quando ele precisou de ajuda e como muitos mais encontraram a mão dele estendida pronta para oferecer ajuda. Juntar as coisas também era mais fácil na teoria. As fotos em cima da mesa mostravam pessoas que partiram, outras que ficaram e mais algumas que estavam indo junto com ele. Boa parte das coisas sobre a mesa eram presentes. Agora ele precisava arrumar um lugar para tudo aquilo. Para tudo aquilo e para si. Aquele que foi o lugar de Jorge no mundo não era mais. E foi divagando sobre esse assunto que ele foi tomar um café. Se não estivesse tão distraído, teria percebido que outra pessoa também estava tomando café.

    — Ah… Oi, Jorge

    — Oi, Cristina… Não vi que você estava por aqui… Melhor eu deixar o café pra depois.

    — Relaxa, Jorge, hoje eu não vou brigar contigo — respondeu ela procurando algo nos armários da copa. — O falatório sobre a tua despedida tá tão grande que esse nosso encontro casual não vai gerar nenhum comentário.

    — Espero que sim — disse ele enchendo uma xícara. — Se tem uma coisa que eu não vou ter saudade é de toda essa fofoca por causa da gente — deu um gole no café.

    — Pelo menos pra alguma coisa tua demissão tem que servir, Jorge. O pessoal do jurídico já tá chorando só de pensar em como vai ser a partir de amanhã. Ao menos alguma coisa positiva tem que sair disso.

    — A galera vai ficar bem, eu não vou fazer essa falta toda. O pessoal só precisa aprender uma ou duas coisas pra poder brigar de igual pra igual contigo. Fora isso vai ficar tudo bem.

    — Teus amigos são meio moles mesmo. Vou começar a tratar só com Roberta. A gente se entende bem sem precisar brigar… Ficar brigando por tudo cansa.

    — Nem me fale… Não vou dizer que vou sentir falta de brigar com você duas ou três vezes por semana… Mas tirando a parte das brigas, foi bom trabalhar contigo, Cristina. Pelo menos até antes da tua amiga começar a espalhar histórias por aí.

    — Pois é — ela ficou alguns segundos em silêncio. — Acho que a gente ainda vai se ver por aí. Do jeito que vai o rolo de Fábio e Luciana, já já a gente vira padrinho.

— Nem me lembra disso. Fábio só fala da tua amiga o tempo todo. Qualquer dia eles casam… Eu ainda passo por aqui esse ano. No dia do amigo secreto do jurídico eu apareço por aqui.

— Passa lá pra dar um alô.

— Passo sim.

Cristina saiu sem dizer mais nada. Deixou Jorge sozinho com o resto do café e dos pensamentos. Ele estava mexendo no celular quando chegou uma mensagem dela.

“Boa sorte, Jorge… Eu ainda te odeio.”

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