Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Categoria: Crônicas e Similares Page 17 of 21

Tocou O Alarme

    “Tocou o alarme”. Talvez não seja algo que você pensa com frequência, mas com certeza é algo que você sente de vez em quando. Mesmo sendo seres, na maioria das vezes,  racionais, nós ainda temos instintos que dirigem muitas das nossas ações. Normalmente esses instintos são discretos, mas alguns deles funcionam como verdadeiros alarmes mentais e como todo bom alarme acabam nos deixando meio malucos.

    Não importa a situação, nem onde você esteja, em algum momento aleatório vai soar um alerta na sua cabeça avisando da necessidade urgente de fazer determinada coisa. Seja a vontade repentina de voltar pra casa ou um desejo irresistível de pegar um caminho diferente na ida pro trabalho. Em algum momento toca um alerta vermelho dentro da sua cabeça e ele não vai parar até você fazer aquela determinada coisa, e todos nós sabemos que agir contra alguns instintos básicos demanda um esforço mental cabuloso que normalmente gera uma série de sensações desagradáveis. Provando que de nada vale ser uma criatura racional quando o alarme inventa de tocar. O senso de urgência nos atinge sem aviso, nosso corpo entra em sintonia com o campo magnético da Terra e nos empurra para a direção que devemos seguir quase às cegas em um movimento quase involuntário, tudo para que o alarme pare de tocar.

    No meu caso acontece algo muito parecido com o instinto migratório de outros animais. Em dada época do ano toca um alarme na minha cabeça pra me avisar de que eu preciso tirar minhas férias. Acho que nem preciso dizer que ele tocou um dia desses e me motivou a escrever esse pequeno relato do cotidiano, na tentativa de diminuir a minha ansiedade pelos dias de folga. Ainda preciso encarar 30 dias na rotina pesada do fim do ano antes de ser temporariamente alforriado. Enquanto isso o alarme soa cada vez mais alto.

E ATEEEEENÇÃO!

Pessoas morrem todos os dias, mas as lendas morrem só de vez em quando. Um desses “de vez em quando” aconteceu ontem, 17 de Novembro de 2015, ontem faleceu Gino César, o Repórter do Bandeira 2.

Caso você, nobre amigo leitor, não resida em Pernambuco ou passou toda a sua vida sem ouvir nem um segundo do Bandeira 2, recomendo que assista esse vídeo abaixo. Caso seu tempo e sua disposição sejam muito limitados, não se preocupe, vou tentar não complicar a história.

Gino César faleceu aos 79 anos e trabalhou no rádio durante a maior parte deles, apesar de ter feito outros trabalhos ficou famoso como repórter policial, trabalho que fazia desde os 22 anos. Sem dúvida alguma o Bandeira 2 é o mais emblemático noticiário do gênero e Gino César o maior ícone do jornalismo policial no rádio pernambucano. Não falo isso apenas pela idade do sujeito, mas também pela forma peculiar de conduzir o noticiário, que acabou transformando o Repórter do Bandeira 2 numa figura folclórica, principalmente entre aqueles que estavam sempre com o ouvido colado no rádio durante as primeiras horas da manhã. Mas qual a minha relação com essa parada toda?

Uma boa parte do público do Bandeira 2 é formado por motoristas de táxi, profissão exercida pelo meu pai. Levando isso em conta, não é de se estranhar que em algum momento eu acabasse escutando o noticiário apresentado por Gino César. Sempre que eu estava no carro junto com meu pai de manhã bem cedo era o Bandeira 2 que tocava no rádio. Eu sempre achei muito curioso, e até divertido, ouvir uma notícia sobre um homem que chegou baleado no Hospital da Restauração que terminava com uma lista de todos os funcionários do hospital que participaram do socorro. Logo depois, sem alterar o tom da voz ou o ritmo da fala, Gino César fazia propaganda de água sanitária e de cuscuz e sem o menor aviso ele soltava um “E ATEEENÇÃO!” antes de voltar para as notícias da madrugada.

Gino César foi o primeiro e único Repórter do Bandeira 2 durante vários anos de sua vida. Não só virou referência para um gênero, mas também se tornou um personagem da cultura popular, um sinônimo de noticiário policial. Fico pensando como Gino César noticiaria o seu falecimento, não é um exercício de imaginação muito difícil para aqueles que o ouviram no rádio, principalmente por que todos sabem como começaria uma noticia dessa importância.

O Poder da Inconveniência

Ano passado eu li um livro muito simpático com o sugestivo título de Todos os Meus Amigos São Super Heróis. Nesse livro os personagens que são considerados os super-heróis de Toronto possuem poderes bastante peculiares, características aparentemente banais são tratadas como super poderes. Caso esse conceito fosse aplicado ao mundo real haveria um poder compartilhado por várias pessoas: o poder da inconveniência

Pessoas inconvenientes estão por todos os lados, mas algumas delas possuem o dom de exercer a inconveniência com maestria. A gama de habilidades desse tipo de ser humano é enorme. Pessoas barulhentas, que ocupam espaço demais na cadeira do ônibus, que ocupam duas vagas no estacionamento, que furam fila, que aparecem em horas estranhas na sua casa. Todas elas e muitas outras poderiam ser super heróis da vida real, usando seus poderes maravilhosos para tornar a existência de outros um pouco menos confortável. Porém, ao contrário dos super heróis normais, essas pessoas não tem nenhuma fraqueza.

A inconveniência reveste essas pessoas de um campo de distorção da realidade, já que seus poderes só surtem efeito quando esses seres excepcionais fazem isso inconscientemente. Por isso é impossível vencer um herói inconveniente, pelo fato de ser impossível convencê-lo do incômodo que ele está causando. Se você, caro leitor, está se lembrando de algum ser humano que foi convencido do mal que ele estava causando, é muito provável de que essa pessoa não possua poderes derivados da inconveniência.

Talvez você esteja se perguntando o motivo pelo qual ainda estou me referindo a eles como “heróis”, mas preciso esclarecer que, dentre todas as habilidades que essas pessoas possuem, a capacidade de ficar incomodado com os outros é uma das mais bem desenvolvidas. Esses seres, ao contrário do que pode parecer, são praticamente canibais. Eles vivem uma relação de antagonismo entre si em um combate sem fim, gastando a maior parte dos seus poderes um no outros.

Vai Sair Um Disco Novo

Essa semana estava eu passeando pela minha caixa de email e me deparei com a notificação de um serviço de streaming me avisando do lançamento da nova música de uma cantora que eu gosto muito. Prontamente entrei no site da moça e vi uma maravilhosa notícia: vai sair um disco novo no início do ano que vem. Sem nenhum motivo aparente essa notícia me fez escrever esse texto.

    Se você acompanha o trabalho de algum artista, seja ele músico, escritor, ator, diretor, desenhista, roteirista e derivados, deve conhecer qual a sensação de saber que algo novo desse fulano está pra chegar. A data do lançamento é o Natal do fã e o disco/livro/filme é o presente. Diferente das tradições que envolvem as festas natalinas, o presente vai ser trazido por uma pessoa de carne e osso, sobre a qual não há dúvidas quanto à existência. A expectativa é muito parecida também, já que normalmente o fã é alimentado aos poucos com inúmeras prévias, teasers, trailers, imagens de bastidores, singles do álbum vindouro e coisas do tipo. Nosso monstrinho da expectativa é alimentado e vai crescendo até que chega a fatídica data de abrir o presente… Mas não são todos que procedem assim.

    As vezes somos surpreendidos com lançamentos que não foram anunciados previamente, que escaparam do nosso radar ou que não tiveram prévias para alimentar monstrinho nenhum. É quando somos pegos de jeito, estamos desarmados e desprevenidos, despidos de qualquer preconceito e talvez mais abertos aquilo que nos será apresentado. A expectativa dá lugar a um momento breve de tensão e ansiedade, o momento que fica entre  o nosso “O que é isso aqui?” e o primeiro acorde da canção, primeira página do livro ou a cena de abertura do filme. Instantes que são quase uma apneia mental ou o último suspiro antes do mergulho.

    Então é chegada a hora da verdade. Hora de ver se a espera realmente vale a pena. O momento em que bate aquele medo de tudo ser uma grandessíssima bosta, mas normalmente ele é vencido pela confiança naqueles que nunca nos decepcionam. Às vezes somos recompensados pela nossa espera, às vezes não, mas se de um lado nos decepcionamos, por outro temos nossas expectativas superadas. Quando eu vejo que vai sair um disco novo eu fico com um pé atrás, nunca se sabe quando esses músicos vão inventar alguma maluquice, mas a música que me motivou a escrever esse texto ficou tão legal que o monstrinho da expectativa já começou a crescer. Falta muito pra fevereiro?

Aqui Jaz

Outro dia uma moça que trabalha na mesma empresa que eu me relatou sobre a sua momentânea falta de animo. Segundo ela o desanimo estava tão grande que ela estava morta. Sugeri então que fosse colocada uma plaquinha com um “Aqui jaz…” em cima da mesa. A ideia agradou tanto que eu continuei o comentário sugerindo um epitáfio completo, que ficou mais ou menos assim:

“Aqui jaz (nome da moça)

Fillha Amada e Esposa Dedicada”

Empolgada com a ideia e não muito satisfeita com um resumo tão sucinto ela disse “E Amiga…”, dando a deixa pra que a frase fosse completada por mim. Incapaz de imaginar algo no momento resolvi pedir um tempo pra pensar e, enquanto voltava para meu local de trabalho comecei a refletir.

Desde criança eu gosto de epitáfios. Claro que eu gostava dos que apareciam nos filmes e desenhos animados, mas a ideia de resumir o que uma pessoa significava para seus  entes queridos ou de passar uma mensagem que ilustra a personalidade do falecido usando apenas algumas palavras é um conceito que me maravilha até hoje. Porém toda essa conversa de epitáfio, lápide e defunto me fez atentar para a injustiça cometida. Depois de morrer só temos direito a uma frase. Uma só, umazinha. Não mais que algumas palavras serão nossa herança para os transeuntes do cemitério.

Imagine só viver uma vida inteira, casar e ter filhos, ser um profissional de qualquer área, ter um hobbie, ser um cidadão ativo, ajudar as pessoas, envelhecer, ou não fazer nada disso, mas ainda assim fazer alguma coisa da vida. Depois de tudo isso ter direito a apenas uma frase. Um punhado de palavras para mostrar àqueles que nunca te conheceram o que você era. Prosseguindo com meu raciocínio cheguei à conclusão de que eu estava prestes a cometer essa mesma injustiça ao completar a frase e finalizar o épitáfio da minha colega de trabalho. Uma frase é muito pouco, não só pra ela, pra qualquer um.

No final acabei completando a frase: “…de todas as horas, até nas horas finais”. A frase foi bem recebida, mas ainda senti aquele gosto que fica na boca quando se comete uma injustiça.

Dia de (Re)Finados

Todo ano é assim, novembro mal começa e já rola feriado. Ao contrário dos demais dias de folga do ano, o primeiro feriado de novembro carrega uma vibe um pouco diferente. Convenhamos que esse feriado em específico tem um ar meio mórbido, afinal ele acaba sendo mais uma data para lembrar do que para celebrar. Talvez seja desnecessário dizer, mas eu estou falando do Dia de Finados.

Não é exclusividade do nosso país ter uma data para lembrar daqueles que já foram. A forma como esse dia é celebrado vária um pouco de país pra país, mas com certeza o feriado fúnebre mais famoso do mundo é o Dia de Los Muertos, uma das maiores festas do México. Quando eu lembro dessa festa duas coisas vêm imediatamente na minha cabeça: a primeira é a Calavera Catrina, sempre retratada como uma morta bastante elegante, e a segunda é como a morte pode ser encarada sob uma perspectiva tão diferente da nossa.

Celebrar os mortos é algo que faz parte do povo mexicano desde antes da chegada dos conquistadores espanhóis. Os antigos Astecas e Maias tinham um ponto de vista em relação à morte bem diferente da nossa. Eles acreditavam que encontrar com seus deuses era uma honra e privilégio, inclusive cabe lembrar dos sacrifícios humanos que eles faziam e que ser escolhido para ser sacrificado era motivo de orgulho. Infelizmente a morte não é encarada de forma tão simples por nós. A perda de uma pessoa querida normalmente é algo pouco agradável e isso é perfeitamente reconhecível, mas sempre fico pensando em como seriam as coisas caso pensássemos diferentes.

Imagino como seria se os enterros fossem sempre grandes festas, com os falecidos em trajes de gala em um evento tão grande quanto um casamento, transformando a celebração fúnebre em algo mais refinado. Como seria legal se os funerais vikings virassem moda e todos os pertences fossem queimados junto com seu dono. Não que eu acredite que alguma dessas coisas possam ser usadas pelo defunto na vida eterna, mas o fogo em grandes proporções normalmente tem um efeito estético bastante interessante. Mesmo que não tivesse nada disso seria bom se, quando víssemos alguém partir, nos lembrássemos menos da falta que essa pessoa vai fazer e mais da diferença que ela fez.

Férias de Bikini

Outubro do ano da graça de 2015. Esse mês vai ser muito movimentado, corrido, atarefado e possivelmente traumático, por isso o Cachorros de Bikini entrará em um período de recesso. As publicações de Quarta e Sexta só retornam em Novembro e os Contos de Segunda serão publicados quinzenalmente.

Nos vemos por aí.

Quando Setembro Acabar

O ano era 2004. Onze anos atrás o Green Day lançou um disco que fez um sucesso bem grande na época: o American Idiot. Nunca simpatizei muito com o Green Day, tanto é que nunca ouvi nada deles além do que vi na Mtv, mas sempre achei legal o conceito de lançar um disco que contava uma história. Apesar de nunca ter ouvido o famigerado disco lembro de boa parte das músicas, das que viraram video clipe pelo menos.De todas as músicas daquele disco, muito provavelmente, uma das únicas que é lembrada até hoje é Wake Me Up When September Ends, ou simplesmente “Me Acorde Quando Setembro Acabar”. Setembro acaba hoje, não tem melhor dia pra falar dessa música.

Em 2004 os ataques terroristas do 11 de Setembro tinham acontecido fazia apenas três anos e boa parte das cicatrizes que vemos hoje nos norte-americanos ainda eram feridas naquele tempo. Essa música não fala dos ataques, ela fala do passado, mas não do passado como estamos acostumados. Wake Me Up When September Ends é uma reflexão de como as coisas passam, de como o tempo passa sem nos darmos conta, de como algumas coisas traumáticas não parecem se distanciar de nós com o passar do tempo. Tudo isso está ligado ao mês de Setembro, tão marcante e traumático para o autor da música quanto para o público que ainda sentia os efeitos do 11 de Setembro.

Setembro é um mês doloroso pra muita gente, mesmo para aqueles que nunca escreveram uma música ou sofreram com os ataques terroristas. Muitas pessoas viram a folha do calendário torcendo para que o o mês nove não demore pra acabar. Muitos gostariam de poder dormir e só acordar quando Setembro acabar. Infelizmente não dá pra fazer isso, mas pelo menos Setembro do ano da graça de 2015 deu uma forcinha, correu e passou voando. Setembro veio e acabou. Qualquer coisa ruim que ele acabou trazendo não durou mais do que trinta dias. Já podem acordar, mais um Setembro acabou.

Parabéns, Sua Infância Valeu a Pena

Como eu falei no texto de quarta, a nostalgia é um sentimento muito interessante e que a nossa querida infernet costuma nos ajudar a lembrar de coisas passadas que nos aquecem o coração. Porém, como tudo na internet, esse esquema de nostalgia tem uma vertente que funciona como um tipo de militância meio babaca. Boa parte do que eu vejo que faz referência à nostalgia consiste em exaltar o próprio passado no esquema “o meu é melhor que o seu”.

Eu particularmente gosto de conteúdo que tem essa pegada nostálgica, gosto de verdade, mas não tem como não sentir uma pontada de indignação quando aparece uma frase do tipo “Se você sabe o que é isso sua infância valeu a pena” ou então “Parabéns, você teve uma infância feliz”. Sério isso? Será que só eu enxergo um problema?

Na minha humilde opinião avaliar as experiências dos outros sob a ótica das próprias experiências até tem sentido, sentido esse que é perdido a partir do momento que tudo que é diferente daquilo que você viveu é taxado como inválido, insuficiente ou negativo. Se o Zezinho que vive na roça nunca teve aquele videogame clássico ou aquele brinquedo famosão pode ter tido uma infância muito melhor do que o cara que teve o disparate de classificar a infância de todos aqueles que tiveram a mesma experiência que ele como uma “infância que valeu a pena”.

Nostalgia não funciona igual pra todo mundo. Muitas vezes as coisas podem significar muito ou nada, depende só da pessoa que se lembra. Por isso gostaria de afirmar que, se a sua infância é o tipo de coisa que aquece o seu coração quando você lembra, que te trás uma infinidade de memórias boas e que te faz sentir uma saudade genuína daquele tempo e de fato você conseguiu ser uma criança, parabéns, sua infância valeu a pena.

Nostalgia

Não é novidade pra ninguém que de uns tempos pra cá a memória do mundo está na internet. Em função disso trabalhar com o passado, em determinados casos, ficou relativamente simples. Por causa disso começou a surgir um movimento de nostalgia para praticamente todas as gerações com idade suficiente pra sentir saudade daquele tempo bom que não volta mais.

Nostalgia é um sentimento interessante, um sentimento bem discreto na minha humilde opinião. Nostalgia é uma manifestação da saudade, mas não é bem saudade. Nostalgia aquece o coração, nos comove e resgata uma fração do sentimento original de quando as coisas que nos deixam nostálgicos eram presente e não passado. A nostalgia não nos deixa cegos, nem impulsivos, nem agressivos, dificilmente a nostalgia causaria uma guerra ou afetaria um relacionamento. Fazemos coisas pela nostalgia que vamos sentir, não pela que estamos sentindo.

Nostalgia é quase uma droga. Tal qual uma dessas substancias (lícitas ou não), ela nos desliga da realidade por alguns instantes. Ficar nostálgico é como se apaixonar pelo passado, é ficar besta de sentir o melhor tipo de saudade, aquela que a gente sente das coisas que tiveram sua hora e seu lugar. Coisas que apesar de  nos dar saudade estão exatamente onde deveriam estar, na memória e é quando uma memória perdida é resgatada o efeito da nostalgia é multiplicado algumas muitas vezes.

O papo sobre nostalgia termina por aqui. Na prática esse texto não está completo, ele serve como introdução pro texto que será lançado na sexta. Fique de olho que a parte séria da coisa começa no próximo post.

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