Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Dia Internacional da Mulher

8 de Março, também conhecido como ontem, dia em que foi comemorado o Dia Internacional da Mulher. Uma data comemorada em todo mundo e que nos lembra da luta feminina pelos seus direitos e por uma sociedade mais justa para pessoas de diferentes gêneros. Como o Cachorros de Bikini não publica nada nas terças este texto está automaticamente atrasado. Como ano que vem o dia 08 vai cair em uma quarta-feira, um texto que vai explorar melhor o significado dessa data e qualquer reflexão do tipo vai ficar pra 2017. Em 2016 vou falar um pouco sobre o ritual folclórico que cerca o dia 08 de Março.

    Março mal começa e vemos todo o tipo de propaganda, vinheta, cartaz, outdoor e derivados fazendo as devidas homenagem aos seres humanos femininos. Homenagens e mais homenagens que se acumulam e aumentam em número, culminando na enxurrada final do dia 08. Dia Internacional da Mulher, dia de ganhar aquela bela rosa acompanhada por um Sonho de Valsa ou similar e um cartão, mensagem ou algo que o valha. Todos os lugares se vestem de rosa, ou não já que atualmente rosa só rola mais em Outubro, e a quantidade exorbitante de parabéns por todos os lados. O que eu acho mais legal de tudo isso é que essa é mais uma prova cabal de que o Dia do Homem é uma parada muito nada a ver.

    O dia 8 de Março não é bem melhor que o 15 de Julho por que todo mundo gosta de adular as moças. Todo o movimento por trás disso é uma mostra de como as questões lembradas no Dia da Mulher são bem mais relevantes. Já começa que ninguém lembra que dia é o Dia do Homem, mas muitas crianças que não sabem nem consultar o calendário sabem qual o Dia Internacional da Mulher, por aí você tira a disparidade que existe entre os dois. Se não acredita é só consultar o datascomemorativas.me. Nesse calendário aparecem datas relevantes como o Dia Nacional do Trovador, o Dia da Identificação, o Dia da Vacina BCG e mais inúmeras datas tão relevantes quanto. Adivinha qual data não aparece nesse calendário? Agora adivinha qual data aparece marcada com uma estrelinha? Essa daí foi tão na cara que nem tem mais como continuar esse tópico.

Pra encerrar esse texto, que já nasceu atrasado, só resta dizer que o Cachorros de Bikini dá os parabéns a todas as moças deste e de outros universos. Vocês merecem bem mais do que uma rosa ou um Sonho de Valsa. Merecem mais do que um “parabéns” ou uns instantes de adulação. Só não digo que merecem o mundo inteiro por que provavelmente se um dia vocês ganhassem iam acabar dividindo ele com os homens. E esse lance de homem cuidando do mundo, seja ele inteiro ou só um pedaço, já sabemos o quão errado dá.

Contos de Segunda #35

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Maurício. Se quiser conhecer melhor as aventuras do nosso sobrevivente do fim do mundo basta clicar nos links dos Contos de Segunda #2 e #22.

O mundo acabou e continuou tão ruim quanto antes. De um jeito diferente, mas ainda era ruim. Era isso que Maurício pensava sempre, pelo menos até um dia desses. Ele tinha engolido uma pilha palito radioativa e sofrido uma espécie de mutação. Os olhos se tornaram totalmente verdes e os cabelos pareciam ter se transformado em uma espécie de tentáculos, as unhas ficaram pretas e a pele começou a acumular eletricidade. Ninguém sabia ainda. Nem ele mesmo sabia bem o que estava acontecendo, mas por via das dúvidas decidiu manter o segredo.

Maurício disfarçou a mutação durante um bom tempo. Sempre usando chapéu ou capuz para esconder os cabelos e óculos escuros para esconder os olhos. A parte boa do disfarce é que ele funcionava, a parte ruim é que ele estava vestido igual aos punks saqueadores que apareceram durante a revolta das máquinas, que aconteceu na sexta-feira da semana em que o mundo acabou. Os punks saqueadores não eram vistos desde que as máquinas foram destruídas, mas eles tinham uma rixa antiga com os arruaceiros matadores de zumbis. Os mesmos arruaceiros que Maurício encarava sempre que ia trabalhar. Os arruaceiros estavam cada dia menos propensos a fazer arruaça, mas continuavam odiando mortalmente os punks saqueadores ou qualquer um que parecesse com eles.

Um belo dia ele foi cercado por cinco deles. Eles pareciam muito mal humorados e não quiseram conversar muito. Eles usavam armas simples, barras de ferro, facas e correntes. Foi uma corrente que enroscou no braço de Maurício quando o primeiro arruaceiro atacou. Toda a eletricidade acumulada na pele saiu pela corrente atingindo o pobre atacante com um choque violento. Maurício se sentiu fraco por um instante, mas não teve tempo para se recuperar, os outros arruaceiros atacaram.

Eles pareciam se mover em câmera lenta. Uma brecha no círculo, a rota de fuga perfeita. Maurício já estava fora do alcance dos seus adversários antes que pudesse notar. Agora eles se moviam normalmente, e pareciam muito zangados. Um deles puxou um apito e soprou com força. Vários outros arruaceiros matadores de zumbi começaram a aparecer de todos os lados. Fugir era sua única chance, então ele começou a correr. Foi quando uma arma disparou. A perna foi acertada de raspão, Maurício começou a mancar o mais rápido que pôde. Mais tiros e gritos de vários homens e mulheres que não pareciam nada contentes.

“É o fim”, pensou Maurício, “Sobrevivi aos zumbis, às máquinas, às armas nucleares, aos terremotos, ao fim da internet, e vou ser morto por um bando de arruaceiros”. A perna doía cada vez mais, apesar de mancar numa velocidade pavorosa, os matadores de zumbi estavam se aproximando. “A ponte!”, pensou Maurício. Se ele conseguisse atravessar na tirolesa estaria livre. Suas esperanças foram pelo ralo quando ele viu a quantidade de gente que estava na fila. O cabo da tirolesa estava partido, ninguém poderia atravessar. Os arruaceiros estavam chegando. Não havia muito tempo, não havia saída.

“Que se dane, esse mundo já acabou mesmo”, foi o que Maurício pensou antes de correr até a beirada da grande fenda que antes dos terremotos era um rio. Ele não hesitou. Se jogou de braços abertos. Caiu no abismo. Abraçou a escuridão.

Contos de Segunda #34

Os fatos narrados a seguir tem relação direta com os eventos do Contos de Segunda #27, leia aqui a Parte 01 e a Parte 02.

    O celular tocou de novo. Já era a quarta vez. O zumbido baixinho que o aparelho fazia não era suficiente para fazer Roberta acordar. Luciana sabia disso. Também sabia que Ned, o cachorro de Roberta, detestava o som do celular vibrando. Caso o celular passasse muito tempo vibrando, ele ficava com vontade de fazer xixi. Ned só fazia xixi na rua, então nesses momentos de desespero ele pedia ajuda à sua dona. Roberta não pôde negar o pedido do cachorro. Desceu vestindo as roupas de dormir, com uma cara amassada e os olhos ainda se acostumando com a claridade. Na frente do prédio uma moça a esperava encostada em um carro.

    — Até que enfim, faz um tempão que eu tô tentando falar contigo.

    — São cinco e meia da manhã, Luciana — respondeu Roberta. O sono ainda não tinha permitido que o cérebro da moça percebesse cem por cento do absurdo daquele momento.

    — Se você tivesse respondido minhas mensagens ou atendido minhas ligações, nenhuma de nós estaria aqui.

    — Eu só vim trazer Ned pra fazer xixi e… Ei, pera aí — finalmente ela tinha acordado. — Você deixou ele nervoso com a vibração do celular de novo?

    — Você podia ter atendido — disse Luciana de um jeito que pareceu mais um “não teve outro jeito”. — Preciso de ajuda.

    — Luciana, qualquer tipo de ajuda pode esperar até o horário comercial.

    — Que horror, Roberta. Eu aqui precisando e você me trata desse jeito?

    Roberta respirou fundo. Olhou para Ned que alegremente marcava o pneu do carro de Luciana. Olhou para o céu como se procurasse um sinal. Olhou para os próprios pés pra tentar criar coragem.

    — Vai, diz o que é.

    Luciana não conseguiu conter o sorriso.

    — Sabe que dia é hoje?

    — Segunda.

    — Sério, Roberta — disse ela fingindo estar ofendida. — Cristina entra de férias hoje.

    — E daí?

    — E daí que nós temos trinta dias para: número um, descobrir o que rolou com ela e o boy no fim do ano e número dois, ajeitar as coisas pra juntar os dois assim que ela voltar.

    — Ah, não. Nem venha, Luciana — Roberta sacudia as mãos. — Essa história já tá me deixando maluca. Deixa os dois se detestarem em paz.

— Que exagero, amiga. Eu conheço Cristina, ela quer o boy dela… Só não se ligou nisso ainda.

— E o que Jorge quer não conta?

— Ele é homem, Roberta. Não interessa o que ele quer.

— Ignorando essa parte. Qual o plano pra descolar a informação?

— Cristina não vai me contar nada. Já tentei de todo jeito, até soro caseiro da verdade ela tomou e não soltou a língua. A esperança é saber por Jorge, é aí que você entra.

— Ihhhhhhhh, nem invente. Jorge anda de péssimo humor e cada dia ele gosta menos dessa historinha que você espalha dele com Cristina.

— Não espalhei nada.

— Luciana, o estagiário que chegou semana passada entrou na sua sala por engano e voltou comentando o que tinha rolado entre Cristina e Jorge.

— Detalhes, detalhes. Eu tenho um plano perfeito pra conseguir matar dois coelhos de uma vez.

— Lá vem.

— Jorge e Cristina são muito parecidos. Cristina não consegue guardar tudo que acontece só pra ela. Ela sempre me conta tudo… Exceto o que aconteceu entre ela e o boy, mas isso é diferente. A gente precisa encontrar a pessoa pra quem ele conta as coisas e chegar no cara.

— Defina “chegar no cara”.

— Isso é comigo, sua parte é me mostrar o alvo.

    — Como não deve ter outro jeito, eu vou te ajudar, mas agora me deixa voltar pra cama. Só ajudo os outros em horário comercial.

    Luciana deu um pulo de alegria e abraçou a amiga. Entrou no carro e partiu. Deixando para trás a amiga sonolenta e seu cachorro mijão.

Relaxa, É Carnaval

Carnaval. Festa da Carne. Quatro (ou cinco) dias de festa, alegria, álcool, música, sol no quengo, suor, calor humano, fantasias variadas, músicas que tocam todo ano, hits feitos de chiclete vindos da Bahia, amores que acabam na quarta-feira, outros que vão durar mais alguns muitos carnavais, muita, mas muita “NOTA…DEZ” e todo tipo de sacanagem lúdica e recreativa.

Apesar de não gostar da folia, é impossível ficar totalmente isolado dessa atmosfera. Diante disso resolvi que o texto dessa quarta-feira(de cinzas) seria sobre o carnaval, mas o que falar dessa festa que eu nem de longe vejo? Realmente de festa eu não entendo, mas uma coisa que eu ainda consigo fazer é observar as pessoas. E no carnaval, assim como em outras épocas do ano, as pessoas adquirem um comportamento muito curioso. Não existe época em que as pessoas são mais tolerantes do que no carnaval.

Pode parecer besteira, mas se você parar pra reparar “É Carnaval” não é só uma frase, é quase um sentimento. Nessa história de “É Carnaval”, o folião não se queixa do sol, nem do calor da fantasia. Não liga pro aperto, é solidário com o folião desconhecido que tá passando aperto. E aperto é o que não falta durante o reinado de Momo. Atrás do trio, da orquestra ou seja lá do que for, o espaço é disputado no nível do metrô em hora de pico. Mas no carnaval quem está se apertando não queria estar em outro lugar.

As piadas fazem mais graça, a música parece melhor e aquela fantasia que talvez não tivesse graça nenhuma faz você morrer de rir. Machistas nível “Orgulho de Ser Hétero”  se vestem de mulher e moças que passam 360 e poucos dias do ano falando mal do tamanho da roupa das piriguetes, mas reservam esses quatro dias pra se vestir pior do que elas. Isso sem contar que coisas que normalmente incomodariam muito, acabam sendo quase ignoradas no carnaval. Andar um tempão pra poder pegar um ônibus ou metrô, improvisar banheiro e até cerveja quente acabam sendo parte do que é se aventurar no carnaval.

Mas hoje é quarta-feira e acabou-se o carnaval. Fim da folga para todos, seja folião ou não. Vou aproveitar a deixa para desejar um feliz ano novo para todos. Afinal, todo mundo sabe que 2016 só começa pra valer a partir de amanhã… Mas amanhã já é quinta… Melhor deixar pra segunda.

Contos de Segunda #33

Aderbal desapareceu. Carnaval, segunda-feira. Os planos de viajar foram frustrados por uma série de infortúnios e imprevistos. Mas nenhum dos imprevistos era maior do que a visita da sobrinha. O irmão de Aderbal morava em um cidade onde a diferença entre o carnaval e o dia de finados era o tamanho do feriado. Não seria estranho que em algum momento Adriana, sobrinha de Aderbal, resolvesse passar o carnaval em um canto onde ele de fato existe.

    Ela chegou no sábado de manhã, mas Aderbal só precisaria se preocupar com ela a partir da segunda. O combinado era encontrá-la perto do centro, onde ficava o apartamento de um dos amigos da moça. Como algumas ruas estavam fechadas, Aderbal precisou estacionar um pouco longe. Ele estava com o nome da rua, Adriana ficou de confirmar o prédio assim que o tio chegasse à rua… E teria confirmado caso atendesse o celular. Diante disso Aderbal resolveu voltar para o carro. Chegando lá ele percebeu que um bloco estava se concentrando exatamente na rua onde o carro estava estacionado. O porta estandarte do bloco tinha caído e quebrado o braço. Os demais presentes estavam tentando resolver quem tomaria seu lugar. Com medo de não conseguir sair com o carro por causa do bloco, Aderbal se ofereceu para levar o estandarte do bloco, talvez assim eles saíssem de lá mais rápido.

    O final do percurso do bloco era um encontro de blocos. Aparentemente todas as agremiações da redondeza se encontravam na segunda-feira de carnaval. Ao perceber que aquilo demoraria mais do que o previsto, Aderbal resolveu ligar para Adriana ou para casa. Ao colocar a mão no bolso não encontrou nada. O celular havia sido furtado. Ele estava pronto para pedir o celular de alguém quando alguém espirrou um spray de espuma no seu rosto. Imediatamente começou uma reação alérgica que fez o rosto e a língua do pobre homem ficarem inchados, ninguém conseguia entender o que ele estava falando.

    Ainda na metade do encontro de blocos outra pessoa resolveu assumir o estandarte. Aderbal voltou correndo para o carro. Quando ele tentou destravar as portas, o controle do alarme entrou em curto e o veículo começou a apitar. Isso ocorreu justamente quando uma viatura da polícia militar passava pela área. Os policiais não acreditaram na história de Aderbal, pelo menos na parte que eles conseguiram entender. O inchaço do rosto o deixara muito diferente das fotos que estavam nos documentos. Os policiais chegaram à conclusão de que aqueles documentos e aquelas chaves haviam sido roubados e o suspeito seria levado à delegacia.

    Adriana não conseguiu uma carona. Ao chegar de táxi na casa dos tios informou a família sobre o sumiço de Aderbal. Resolveram esperar mais algumas horas até que ele aparecesse. Tal fato só ocorreria na metade da madrugada. Quando o rosto de Aderbal finalmente voltou a ter alguma semelhança com as fotos dos documentos. Para tentar minimizar os transtornos, os policiais deixaram Aderbal em casa. Mas a família toda tinha resolvido ir procurá-lo nos hospitais, delegacias e no IML. Infelizmente ele precisava esperar alguém voltar antes de entrar em casa. As chaves ficaram no carro.

“Essa Treta é Realmente Necessária?”

Semana passada estava eu matando tempo no Facebook e eis que me deparo com um link deveras interessante. O link em questão foi compartilhado por um site de humor, daqueles que faz piadas retardadas e totalmente sem sentido. Como eu gosto muito de piadas retardadas e sem sentido, resolvi abrir o link e ver qual é. A piada retardada em questão não era tão engraçada assim, mas uma coisa me chamou muita atenção. Modificando ligeiramente uma cena clássica do desenho do Pica-Pau para que o display do elevador que o nobre pássaro faz subir (ou descer, não lembro direito como era a cena) em uma velocidade insana mostre no lugar de “Essa Velocidade é Realmente Necessária?” a frase “Essa Treta é Realmente Necessária?”. Ponderando sobre essa frase cheguei à conclusão de que ela é muito mais profunda do que parece.

    Treta. Termo popularizado principalmente nas redes sociais que serve para dar nome à todo tipo de confusão, mas usado com mais frequências nas brigas mais complexas. Nos tempos de hoje as redes sociais estão apinhadas de tretas. Qualquer check in, marcação, compartilhamento, textão, textinho, foto, video ou GIF animado tem um potencial enorme pra gerar uma treta. E onde isso se manifesta com mais violência é na área de comentários. É lá que a batalha campal acontece de verdade, onde seres humanos de todas as idades, profissões, religiões e classes sociais se rendem aos seus instintos mais selvagens e caem em cima dos seus teclados cheios de fúria. Nesse momento até o mais pacato dos cidadãos pode se tornar uma besta descontrolada, desejando beber o sangue daqueles que discordam de suas opiniões. Pode acontecer com qualquer um de nós, ninguém está isento de cair na tentação. Mas antes de nos rendermos aos impulsos selvagens de nosso ser, existe uma simples pergunta que deve ser feita: “Essa Treta é Realmente Necessária?”.

    Pense comigo, querido leitor. Quantas vezes você já se fez essa pergunta? Quantas vezes se meteu em uma treta muito louca que não valeu a pena? Quantas vezes se livrou de uma treta muito louca por que percebeu que não valia a pena ceder aos impulsos selvagens? “Algumas”, “um monte”, “nunca” ou qualquer outra resposta para qualquer uma dessas perguntas serve pra comprovar o que eu estou dizendo. Imagine um mundo em que somente as tretas necessárias acontecessem. Imagine um mundo onde as pessoas não quisessem se matar por causa de um assunto irrelevante. Esse mundo maravilhoso onde as discussões triviais são respeitosas, civilizadas, ponderadas e moderadas é possível. Basta fazer essa pergunta sempre que o sangue ferver e as palavras furiosas subirem pela garganta ou quiserem sair pela ponta dos dedos. Da próxima vez que o desejo da treta bater, faça a pergunta. Pare um pouco, respire, conte até três e pense “Essa Treta é Realmente Necessária?”. A quantidade de vezes em que a resposta será “Não” vai te deixar surpreso.

Contos de Segunda #31

— Fernanda, já vou entrar pra fazer meu exame. É o tempo de você chegar aqui.

— Tá certo, mãe. Saio em dez minutos.

Fernanda desligou o telefone, colocou uma calça, pegou as chaves do carro e a bolsa. Era segunda-feira, janeiro. Mês preferido da mãe dela para ir a inúmeros médicos e realizar toda a sorte de exames. Aquele seria o último exame daquela manhã, logo depois as duas almoçariam juntas. Fernanda deixaria a mãe em casa e depois partiria para uma entrevista de emprego. Ela já tinha feito aquilo várias vezes, exceto pela parte da entrevista, o caminho era conhecido e não tinha erro. De fato não teve, mas nem sempre as coisas são tão fáceis.

Depois de entrar no carro a moça conectou o celular ao aparelho de som, escolheu uma playlist e partiu. Desceu a rua, virou uma esquina e caiu dentro do maior engarrafamento da sua vida até então. A rua estava passando por obras. Obras que tinham começado naquela manhã e que pegaram muitos motoristas de surpresa, inclusive Fernanda. A possibilidade de engatar a ré foi eliminada pelos oito carros parados atrás dela. Não tinha muito o que fazer além de continuar ouvindo música e andar a meio quilômetro por hora. O trecho até o ponto em obras era curto, não seria tanto transtorno. Foi quando começaram a buzinar.

Fernanda tinha um problema sério com buzinas. Bastava uma buzina para o pavio curto da moça ficar muito menor. Principalmente quando a primeira buzina era apenas o inicio de um verdadeiro coro. Quando a terceira buzina se juntou à sinfonia, Fernanda já apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos já estavam ficando brancos. Ela aumentou o volume da música, mas do nada o celular desconectou. Depois de cinco tentativas ela resolveu ouvir rádio. Só que naquela rua, por algum motivo desconhecido, praticamente todas as estações ficavam fora do ar. Problema que normalmente não incomodava, já que passar por ali nunca demorava. Ela teve que se conformar em escutar o debate com um ateu, um deputado, uma freira, o comandante da polícia militar e um cara que tem um vlog de sucesso no YouTube. O debate já estava ruim o suficiente quando o ar condicionado parou de funcionar.

Quarenta minutos depois Fernanda conseguiu passar pelo trecho de obras. Com raiva, suada, sem paciência e com uma vontade incontrolável de meter a mão nas fuças de um certo carinha do YouTube que conseguiu irritar muito mais do que as buzinas.

— Que demora foi essa, Fernanda? Tô esperando tem vinte minutos. Veio com os vidros abertos nesse calor?

— Mãe, vem logo que eu preciso fazer uma coisa antes da gente almoçar.

— Não me apresse que você sabe como é ruim entrar nesse seu carro. Quem é que tá falando no rádio? Ah, é aquele menino da internet. Eu adoro os vídeos dele, é tão engraçado, né?

Fernanda não respondeu. Ela teve que deixar a mãe em casa, aparentemente ela tinha perdido a fome. Provavelmente a “coisa” que precisava ser feita antes do almoço foi um choque muito grande. Naquela tarde os jornais noticiaram o triste acidente sofrido por um jovem de sucesso no YouTube. Ele foi atropelado quando atravessava a rua saindo de uma rádio. O motorista não pôde ser identificado e não conseguiram anotar a placa do veículo.

Hora Certa

    Creio que todos saibam que antes de escrever o sujeito metido a brincar com as letras era um simples leitor. Não que deixe de ser depois que inventa de escrever, mas isso é conversa pra outra hora. Enfim, completemos o raciocínio. Como todo leitor eu tenho um péssimo hábito: Comprar mais livros do que eu posso ler.

 Leitores são como as formigas da fábula famosa: gostam de garantir sua sobrevivência durante o inverno. E como já dizia aquele Stark que não é o Homem de Ferro “O Inverno está chegando”. E ele chega, pode crer que chega. E, assim como as formigas, os leitores começam seus trabalhos com antecedência, sem pressa, movidos pelo medo da escassez. A fobia de olhar pra uma estante repleta de livros que já foram lidos.

Pode parecer besteira, pode soar parcial ou redundante, mas eu concordo com a atitude desses seres que permeiam entre a ganância e a precaução. Antes que você, caro leitor, ache que eu estou justificando meus próprios maus costumes deixe-me concluir.

Todos nós precisamos de um tomo ainda não lido em nossas prateleiras. A própria perspectiva de uma novidade ao alcance de nossos dedos nos enche de esperança em um amanhã melhor. Ao nos relembrarmos constantemente de que ainda não lemos aquele livro que já fez aniversário exercitamos nossos instintos de zelo e responsabilidade. Mas acima de tudo, quando chegar a hora certa eles serão lidos.

É certo que por causa da escola acabamos lendo um monte de coisa imprópria para a nossa idade. Mas não é disso que eu falo. Livros são que nem músicas. Faz muito mais efeito quando lidos na hora certa. E, dependendo do momento, podem deixar de ser um simples entretenimento e se tornar uma parte importante da sua vida, da sua formação como pessoa ou simplesmente algo que aquece o coração só de lembrar. Podem nos ajudar em momentos difíceis e depois nos esquecermos deles. Ou então não fazerem sentido algum daqui a 2 meses, dois anos ou mais. Mas isso é depois. Antes disso tem magnetismo inicial, o flerte discreto e a atração irresistível que nos faz abrir páginas inexploradas e mergulhar nas suas profundezas durante um bom tempo. E o durante faz com que todo o antes faça sentido.

A Barba Pode Chegar ao Fim em 2016

    Especialista diz que este pode ser o ano em que a barba chegará ao fim. Foi essa noticia que apareceu essa semana no meu feed do Facebucket. Obviamente o título da matéria me chamou a atenção, por dois motivos simples: eu sou um cara de barba e queria muito saber por qual motivo a barba “chegará ao fim” em 2016.

    A matéria saiu originalmente no The Independent e fala de como a barba está saindo de moda. “Se é só isso, então por que cargas d’água você está falando disso?”, deve ser isso que você, querido leitor, deve estar pensando. Na verdade não tem nada de interessante nisso, a parte legal disso tudo é a forma como o texto foi escrito e as informações que ele se baseou para chegar à conclusão de que em 2016 a barba será derrotada por outras tendências.

    Em entrevista à revista Times britânica, o historiador (sim, historiador) e especialista no assunto (sim, historiador especialista nesse assunto), Alun Whitey, comenta que a queda da barba está prevista desde 2013. Mas apesar das previsões os cabelos da face seguiram resistindo, firmes e fortes até o fatídico ano de 2016, quando novas tendências estão ameaçando os pelos do rosto. Segundo o historiador especialista, nos Estados Unidos já existe um novo ideal que se opõe à barba: o yuccie. Quando essa classe se tornar dominante a era das barbas chegará ao fim. Sinais do fim dos tempos (para as barbas) já podem ser vistos por aí.

    Fico pensando se as coisas realmente acontecessem como foi descrito na matéria. Um estilo é considerado rei, mas aos poucos uma trama política começa a ser tecida. Aos poucos focos de resistência começam a aparecer e as coisas caminham para a mudança no poder. Um novo estilo ascende e derruba um já estabelecido, iniciando um novo reinado da moda. Fico pensando o que aconteceria com aqueles que se negassem a aceitar o novo regime. Seriam considerados subversivos? Criminosos? Sofreriam represálias? Infelizmente o jogo da moda não está nem perto de ser um Game of Thrones, mas agradeço a Deus pela ditadura da moda ser algo que não me obriga a nada. Minha barba sobreviverá ao ano de 2016.

Contos de Segunda #30

A capacidade de se camuflar em qualquer ambiente, força e agilidade aprimoradas, visão telescópica multidirecional e um senso de justiça muito superior ao dos humanos comuns. Foi esse conjunto de habilidades que transformaram um jovem comum no super herói conhecido como Homem Camaleão, defensor feroz da justiça e dos mais fracos.

    Era apenas mais uma segunda-feira em Vila Urbana. E seria mais uma segunda-feira tranquila se não fosse pelo assalto ao maior banco da cidade. A polícia tinha chegado antes dos bandidos terem a chance de fugir. Encurralados como estavam, os bandidos decidiram fazer todos os presentes de refém. As negociações com a polícia estavam tensas, alguns disparos foram feitos e duas pessoas estavam feridas, um refém e um policial. As coisas só pioravam, mas em meio à confusão um ser quase invisível não foi notado. Ninguém percebeu quando os cacos de vidro do chão se moveram por causa de dois pés, nem quando a porta giratória se mexeu por causa de um homem. Um herói. Os dois bandido que vigiavam os reféns foram nocauteados. Depois foi a vez dos outros três que tentavam negociar com a polícia. Em cinco minutos os bandidos estavam algemados e a caminho da delegacia. O Homem Camaleão estava pronto para escapar dos jornalistas quando um homem o abordou.

    — O senhor é o Homem Camaleão, correto? — O homem tinha um pouco mais de quarenta anos, usava camisa social e verificava os itens de uma lista que estava em uma prancheta.

    — Isso mesmo, caro cidadão, em que posso ser útil?

    — O senhor tem autorização para conduzir operações de resgate desse tipo? — Disse o homem com a mesma naturalidade de quem compra o jornal, os olhos fixos na prancheta.

    — Autorização? — Por essa Camaleão não esperava. — Queira me perdoar, cidadão, mas não creio que seja necessário autorização para trazer justiça aos criminosos.

— Claro, filho, todo mundo diz isso. Seu alvará está em dia, senhor Camaleão?

— Al… Vará?

— Imagino que pelo menos o seu cadastro esteja atualizado.

— De qual cadastro o senhor está falando?

O homem respirou fundo. Olhou diretamente para o herói. Estudou aquela cara de confusão total que ele estava fazendo e chegou facilmente a uma conclusão.

— Senhor Camaleão, tenho uma forte impressão de que o senhor não tem a menor ideia de quais são os documentos que eu estou citando.

— Bem… Assim… Eu estou nessa faz pouco tempo… Sabe como é, né?

— Não. Não sei — ele respirou fundo novamente — eu sou só um fiscal da prefeitura tentando fazer o meu trabalho. Não entendo dessas coisas de super heroísmo, e pelo visto o senhor também não. — Ele tirou uma folha de papel da prancheta e entregou ao jovem — Vou te dar um desconto, filho. Apresente esse parecer que eu acabei de fazer junto com os documentos da lista na secretaria de assuntos especiais. Só precisa desse atestado de anomalia genética se seus poderes forem de nascença.

— Isso tudo é realmente necessário?

— Tem ideia de quantos malucos fantasiados existem nessa cidade, filho? Sabe quais deles são os mocinhos e quais são os bandidos? — O fiscal começou a ficar irritado. — Sabe quantos maníacos homicidas se metem com vocês supers todo ano? Sabe a diferença entre a quantidade da burocracia envolvida pra trocar um poste derrubado por um herói e um derrubado por um bandido? Faça um favor a todos dessa cidade, regularize sua situação. Essa cidade merece heróis que agem de acordo com as leis. Tenha um bom dia.

O fiscal girou nos calcanhares e foi embora. O Homem Camaleão observou a lista de documentos. Finalmente estava diante dele um inimigo que ele não conseguiria vencer. Algo muito mais poderoso do que ele. Uma luta para qual ele não estava preparado. A luta contra a burocracia.

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